"E não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos pela renovação do vosso entendimento, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus." - Romanos 12:2

terça-feira, 7 de novembro de 2017

A ciência por trás das armas acústicas

por: Gustavo Silva (Veja)



Em dezembro de 2014, a polícia de Nova York utilizou um dispositivo acústico para dispersar manifestantes em um protesto pela decisão de um júri popular em não julgar um policial branco responsável pela morte do jovem negro Eric Garner. Seis pessoas que estavam próximas ao canhão sonoro processaram as autoridades pelo uso do equipamento, uma arma não letal que provocou manifestações físicas como tontura, fortes dores de cabeça, pressões faciais e zumbido intenso nos ouvidos. Os sintomas se assemelham àqueles relatados por diplomatas americanos em Cuba que teriam sido alvo de misteriosos ataques sônicos a partir de novembro de 2016.

Efeitos

“Pessoalmente, acredito que ‘o que você não consegue escutar, pode te ferir'”, disse a VEJA Steven L. Garret, professor aposentado de Acústica da Universidade Estadual da Pensilvânia. Pesquisas dos efeitos de ondas infra e ultrassônicas sobre o corpo humano despertam mais questões do que esclarecimentos, muito devido às implicações éticas e de seus potenciais efeitos. Um dos mitos mais recorrentes relacionado ao infrassom tem até nome próprio: ‘nota marrom’, uma baixa frequência inaudível que seria capaz de provocar o descontrole intestinal.

Garret conta que quando ficou exposto diretamente a um dispositivo capaz de emitir sons em frequências acima de 40.000 Hz – a percepção auditiva humana é limitada a entender sons que se localizam entre frequências de 20 Hz e 20.000 Hz -, ele e outros pesquisadores desenvolveram sintomas similares aos descritos pelos diplomatas americanos em Cuba, como náusea e tontura. “Agora, usamos fones com abafadores no experimento”, disse, adicionando que “não há muitos estudos sistemáticos para determinar se o ultrassom pode provocar danos fisiológicos em humanos”.
As consequências da exposição às ondas inaudíveis, contudo, tem mais a ver com o período e potência sonora do que apenas à frequência em si. Especialista em acústica da Universidade Técnica de Dortmund, na Alemanha, o físico Jurgen Altmann explica que “o sistema auditivo humano é mais sensível às faixas entre 1.000Hz e 4.000 Hz”, mas os danos provocados por dispositivo sonoros são frutos “principalmente de uma combinação de volume e duração”.

Volume

A legislação trabalhista brasileira considera que a exposição a ruídos sem proteção deve ser limitada em oito horas por dias para sons na faixa dos 85 decibéis (dB). Em locais com volumes de 90 dB, o trabalhador pode permanecer na área por no máximo quatro horas. Sem as devidas proteções, não é permitido que alguém seja exposto a mais de sete minutos de sons a 115 dB.

“Qualquer som acima dos 120 dB é perigoso e, acima de 140 dB, até mesmo uma fração de segundo de exposição pode causar danos permanentes à audição”, diz Altmann. “Contudo, devido às leis da acústica sobre a propagação de ondas, é difícil criar armas que funcionem à distância”, explica o pesquisador, que cita estudos conduzidos pelo Laboratório da Força Aérea Americana atestando que “armas acústicas não apresentam utilidade militar”.

Quer saber qual é a sensação de (não) ouvir frequências infrassônicas? Basta dirigir um carro em alta velocidade com as janelas abertas, ou abrir e fechar rapidamente a porta de uma sala com as janelas fechadas, o que produz uma rápida variação de pressão atmosférica em uma frequência entre 0.5 e 2 Hz. As versões mais primitivas de sonares e radares utilizados na II Guerra Mundial, assim como aparelhos da indústria médica destinados a exames diversos, fazem uso de ondas sonoras para o mapeamento de imagens. De limpadores de joias a repelentes eletrônicos de animais e insetos, há uma série de máquinas ultrassônicas disponíveis no mercado.

Uso Policial

Um desses dispositivos é o Mosquito, criação de um engenheiro espacial britânico capaz de emitir ondas sonoras ultrassônicas em alto volume. A ideia por trás do aparelho tem como base um pressuposto biológico: com a idade, a capacidade humana de captar as frequências mais altas de som diminui. Por isso, o ruído estridente do Mosquito afeta quase que exclusivamente pessoas com até 25 anos, e é usado há mais de 10 anos por lojistas e estabelecimentos em vários países para a dispersão de jovens e evitar conflitos e furtos.

O som em altas frequências (e altíssimos volumes) é também a força motriz por trás do LRAD, equipamento cuja sigla em inglês significa ‘dispositivo acústico de longo alcance’. Por longo alcance, entenda uma distância de até 5.500 metros na qual é possível escutar ruídos estridentes que chegam a 150 dB. O canhão sônico, que possui equivalentes espelhados pelo mundo (em Israel, o exército emprega uma versão batizada de ‘O Grito’), é utilizado por forças militares e policiais em mais de 70 países, incluindo o Brasil, em situações de controle de desordem pública e para afugentar piratas de embarcações ou possíveis agentes terroristas.